Tosca de Puccini e o preço do fascismo: conivência e morte

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É senso comum entre os historiadores que a ́época moderna cria e dissolve valores e que  sua superioridade sobre as culturas precedentes está no fato que o corpo dos humanos não é mais “disponível”

Qual o preço que o bolsonarismo paga às consciências  dos seus militantes, para que eles sejam indiferentes a mais de 400 mil mortes, ensejadas pelo negacionismo? São mortes extravasadas pela inexperiência de governar e pela maldade psicótica de um projeto político que debocha da Ciência e do Direito e vê o povo como rebanho para testar as suas convicções necrófilas.

É impossível mensurar este “preço” sem visitar os limites morais e éticos da modernidade, para entender a tragédia que vivemos, Certamente é um “preço” capaz de compensar a negação da atitude humana que vê no outro uma extensão de si, que sinta a dor do outro como a própria dor. É um preço pago para  desconstruir o humano dentro de nós, cuja grandeza está em perceber que – ao nosso lado – está alguém que deve sobreviver, porque só juntos somos realmente humanos e grandiosos.

Mattelart lembra que no Século XIX “os partidários do livre comércio” também se (puseram) a falar na linguagem da ‘fraternidade internacional’ (…) evocação que lhes valeu uma vergastada” de parte de um tal Karl Marx. Este identificava aquelas propostas, na verdade, como o “enclausuramento do mundo interior em uma rede de trapaças financeiras e endividamentos recíprocos”, que iriam pautar o sistema
do capital, dali para diante.

Com as guerras de conquista por terras e mercados, as disputas geopolíticas pelos domínios coloniais mudam de caráter e estruturam novas formas de controle e dominação. Os partidários do “livre comércio” viam a fraternidade universal como um intercâmbio material integrador do mundo pelo capital e Marx o via como um impulso civilizatório: ao mesmo tempo destrutivo e construtivo, capaz de no futuro promover uma troca de valores morais e políticos entre as comunidades nacionais pautadas pela igualdade social.

“Tosca”, de Puccini (1858\1924) estreia algumas décadas depois desta polêmica nos primeiros dias de 1900, no Teatro Constanzi, em Roma, ópera em que o personagem dá o nome à obra, composta quando se abriam as cortinas revolucionárias do Século XX. À busca do Século pela igualdade sobrevém, igualmente, a reação, o fascismo, a guerra contra os valores iluministas: os Campos nazistas, Gulags, a bomba atômica, massacres pela fome e as guerras étnicas, herdeiras das dominações coloniais.

No ato II da ópera, Tosca implora ao Chefe de Polícia Scarpia que liberte Mário, seu amado revolucionário iluminista que, ali mesmo – nos porões do Palácio – está sendo duramente torturado. Os gritos de Mário atravessam os diálogos entre Scarpia e Tosca, prenunciando as brutalidades que marcariam o Século XX. Na Itália, este começo já é figurado – alguns meses depois – também pelo assassinato do Rei Humberto I, cometido pelo anarquista Gaetano Bresci, que anuncia o morticínio da 1a. Guerra e seus gases asfixiantes.

Scarpia oferece à Tosca uma proposta sexual, para tomar a decisão política de permitir (falsamente) a libertação de Mário. A sua frase tem um enorme significado ético-moral para ajudar o entendimento dos tempos duros da nova época que se avizinhava: “você me pede uma vida, eu lhe peço um instante”. A proposta do Chefe de Polícia era uma resposta a Tosca, que esperava receber um pedido de “ajuda” em dinheiro por parte de Scarpia, para a libertação de Mário. É o momento no qual ela pergunta: “quanto?”,  qual  “il prezzo” da liberdade  de Mário?

É senso comum entre os historiadores que a ́época moderna cria e dissolve valores e que  sua superioridade sobre as culturas precedentes está no fato que o corpo dos humanos não é mais “disponível”. Nem para o mercado, como escravos, nem para os suplícios medievais – como na inquisição – para a religião fazer da dor uma luta contra o pecado. Mas é longa a viagem dos seus “valores” abstratos até eles se tornarem “regras”, para organizar a vida real, proibindo que os corpos sejam transacionados como animais.

Quando o Presidente Bolsonaro pede ao povo que “não sejam maricas”, perante a pandemia, todavia, ele incentiva a exposição dos corpos ao vírus e depois debocha da “falta de ar”, que mata os corpos que se empilham nas vastidões do Brasil. É o momento que vemos como estamos distantes das normas herdadas do humanismo da Renascença e depois da cultura ilustrada. E vemos como estamos próximos dos Belsen, Dachau, Buchenwald, Treblinka, Auschwitz-Birkenau, do Estádio Nacional Chileno e dos porões malditos de todas as ditaduras do mundo.

Qual é o tipo de inércia é essa que faz as pessoas se omitirem perante a morte de inocentes? O que as paralisa, no momento em que a solidariedade humana e um pouco de coragem é o último recurso para proteger a vida?  A resposta a tal indagação é importante porque é pela omissão dos neutros e pela pobreza moral dos omissos que o fascismo das elites e das milícias “de baixo” se massifica, em certas condições históricas.

Em um tweet do G1 04\05, está uma nota sobre a morte do menino Henry, que exemplifica como o universo do mal se revela na vida das pessoas comuns, travadas pela hierarquia que as separa dos donos do mundo. Hierarquia que as torna frágeis – mesmo não sendo assassinas – mas levando-as a compactuar com a morte, para não perderem o seu pobre lugar no mundo. Referindo-se às torturas sofridas por Henry sua babá diz: “chorando, sei que (ele) está vivo, pelo menos”. E nada fez para enfrentar o torturador assassino.

No ato II Tosca – sozinha com Scarpia – consegue esfaqueá-lo à morte, pois pensa que a sua entrega física ao mandante da tortura do  amado seria um agravo tão brutal contra ele, como as torturas físicas que ele sofria como revolucionário “voltairiano”. Revolta, amor, coragem rebelde, luta pela felicidade individual e coletiva, estão nesta magnífica obra de Puccini, que se volta contra as injustiças do mundo do medievo e da repressão aristocrática.

Quem conhece a obra sabe que ela não tem um final feliz, mas Puccini que – como Croce – flertara com o fascismo nos seus inícios, foi salvo deste compromisso pela música e pela amizade com Toscanini – antifascista militante que influiu nas suas opções políticas. Croce, por seu turno, foi salvo tanto pelas suas observações empíricas do comportamento de Mussolini e suas “esquadras”, como pelas suas reflexões sobre a cultura e o seu apreço à filosofia.

Podemos nos salvar e salvar a massa de mendigos morais do bolsonarismo, na fase avançada da doença política do corono-fascismo? Penso que ainda podemos, mas os caminhos são estreitos e eles não tem contornos de regresso. Nem espaços para descanso ou vacilação. Estamos enfrentando a política que na história presente, é um reflexo do mal absoluto. Derrotar o mito e aniquilá-lo, politicamente, é o caminho sem volta para colocar o fascismo no lixo que ele merece e entregar os seus prepostos para as barras dos Tribunais e para os degredos da História.

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. 

Tarso Genro

Tarso Genro,

Tarso Genro es gobernador del Estado de Rio Grande do Sul, Alcalde de Portoalegre durante los primeros Foros Sociales y Ministro en varios gabinetes del presidente Lula. Miembro del Comité Editorial de Insight

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